Os dados de oferta e demanda apresentados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em agosto indicaram uma alteração significativa no equilíbrio entre soja e milho. Enquanto o milho parece estar se recuperando no mercado internacional, a soja ainda enfrenta um desafio persistente: a demanda insuficiente.
Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, observa que a situação do milho é marcada por estoques reduzidos, o que torna o mercado mais suscetível a novas perdas de produção ou mudanças inesperadas na demanda. Em contraste, a soja se vê pressionada pela abundância da oferta nos EUA, tornando os preços mais dependentes de novos incentivos, principalmente das compras realizadas pela China.
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No entanto, no Brasil, as flutuações nas bolsas internacionais são apenas um dos fatores que influenciam a formação dos preços, que também são afetados pela taxa de câmbio, prêmios e demanda local.
Em relação à soja, houve uma revisão na produtividade dos EUA, que caiu de 59,40 para 59,07 sacas por hectare. Contudo, a área cultivada teve um aumento de 1,7%, alcançando 34,72 milhões de hectares. Com isso, a produção totalizou 122,99 milhões de toneladas, superando as expectativas do mercado que eram de 121,8 milhões.
Segundo informações do USDA, os estoques finais foram estimados em 8,71 milhões de toneladas e as previsões de importação da China mantiveram-se em 115 milhões de toneladas.
Isabella Pliego ressalta que o aumento na oferta americana limita as possibilidades de uma alta consistente nos preços. “Atualmente, o que impede a valorização da soja é a demanda. Embora um maior esmagamento sustente os preços do farelo e do óleo, isso não resolve o excesso de grãos que precisa ser exportado dos Estados Unidos”, comenta.
A projeção para a produção brasileira de soja em 2026/27 se mantém em 186 milhões de toneladas. Assim sendo, o mercado aguarda novos sinais da demanda chinesa ou perdas significativas nas lavouras americanas para conseguir mais estabilidade.
Milho apresenta estoques reduzidos
No contexto do milho, Isabella Pliego afirma que a combinação entre maiores exportações e estoques menores alterou a percepção do mercado. Os embarques norte-americanos para 2025/26 aumentaram de 84,46 milhões para 86,36 milhões de toneladas. Por outro lado, os estoques disponíveis caíram de 51,31 milhões para 49,40 milhões.
Para o período de 2026/27, as projeções indicam estoques finais em 41,98 milhões de toneladas, representando uma diminuição de 7,65%. “A relação entre estoques e uso nos EUA saiu de uma situação confortável para um nível justo. Isso faz com que o mercado comece a precificar riscos: com menos margem disponível, qualquer problema climático ou variação na demanda pode resultar em reações desproporcionais nos preços”, explica Isabella.
Embora a produção norte-americana continue robusta com um total de 406,75 milhões de toneladas, a redução nos estoques disponíveis limita as possibilidades para novas perdas ou aumento nas exportações. O relatório do USDA revela que a relação entre estoque e uso caiu para 10,12%, uma mudança significativa na dinâmica do milho.
Taxa cambial continua sendo crucial
No Brasil, Isabella enfatiza que os efeitos desse cenário global ainda dependem fortemente das condições internas. A previsão para os estoques finais do milho em 2026/27 foi reduzida de 11,1 milhões para 10,1 milhões de toneladas; ao mesmo tempo que o consumo interno aumentou de 98 milhões para 100 milhões de toneladas.
Para ela, é fundamental analisar as movimentações internacionais juntamente com as condições do mercado brasileiro. “A taxa cambial e os prêmios da soja junto com as exportações brasileiras continuam sendo determinantes sobre quanto desse movimento externo chega aos produtores locais. No caso do milho, o consumo interno também ganha destaque”, afirma.
O cenário delineado pelos dados do USDA coloca milho e soja em situações distintas. Enquanto o milho opera com menor margem nos estoques americanos e fica mais vulnerável a fatores climáticos e demandas inesperadas; a soja requer novos estímulos para aliviar as pressões geradas pela oferta excessiva.
Isabella conclui que a interação entre esses fatores externos e as condições internas será crucial para definir os próximos movimentos no mercado financeiro relacionados aos preços agrícolas.
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