Avanço da produtividade do trabalho em Estados do interior reforça o peso da agricultura tecnológica na transformação econômica brasileira
Durante décadas, prevaleceu a ideia de que o desenvolvimento econômico faria a agricultura perder importância relativa à medida que indústria e serviços avançassem. A transformação recente do interior brasileiro, porém, mostra uma realidade mais complexa: em várias regiões, é justamente o agronegócio moderno, intensivo em tecnologia, capital e conhecimento, que está impulsionando produtividade, renda e novos investimentos.
Um estudo sobre produtividade do trabalho nos municípios brasileiros entre 2002 e 2019 ajuda a dimensionar essa mudança. Elaborado pelos pesquisadores Alan Bueno e Diogo Ferraz, o trabalho calculou a evolução da produtividade municipal e depois agregou os resultados por Estado. A medida relaciona o valor adicionado produzido à quantidade de trabalho empregada, funcionando como um indicador da eficiência econômica da mão de obra.
Os resultados chamam atenção porque desafiam a imagem tradicional de que os maiores avanços estariam concentrados nos centros industriais mais desenvolvidos do país.
No período analisado, o Piauí apresentou crescimento de 103% na produtividade do trabalho, seguido pelo Maranhão, com 86%, Tocantins, com 69,7%, e Mato Grosso, com 55,8%. São Paulo, apesar de continuar sendo a maior economia estadual do país, apresentou crescimento de apenas 1,2% nesse indicador e ficou entre as últimas posições do ranking.
A geografia da produtividade brasileira, portanto, está mudando.
O desenvolvimento avança pelo interior
Uma das explicações para esse fenômeno está na modernização da agropecuária.
A agricultura contemporânea pouco se parece com a atividade caracterizada apenas pelo uso extensivo da terra e grande quantidade de mão de obra de baixa produtividade. Em muitas regiões brasileiras, produzir passou a depender cada vez mais de:
- máquinas e equipamentos sofisticados;
- sistemas de irrigação;
- genética e melhoramento de sementes;
- fertilizantes e correção de solo;
- agricultura de precisão;
- análise de dados;
- logística;
- crédito;
- pesquisa agronômica;
- gestão empresarial.
O resultado é uma atividade capaz de produzir mais utilizando proporcionalmente menos trabalho direto no campo, ao mesmo tempo em que cria demanda por uma extensa rede de serviços.
É por isso que o impacto do agro moderno não termina dentro da propriedade rural.
Ao redor da produção surgem empresas de transporte, oficinas, revendas de máquinas, armazenagem, processamento, serviços financeiros, consultorias técnicas, construção civil, comércio e outras atividades.
O crescimento agrícola passa a movimentar a economia urbana.
Produtores dão rosto a essa transformação
Por trás dos números de produtividade existem produtores rurais que transformam capital, conhecimento e trabalho em produção.
É nesse universo que se insere Antônio Martins dos Santos, produtor de café. Sua atividade representa uma das muitas faces de um agronegócio brasileiro que vai muito além das grandes culturas de grãos e reúne cadeias produtivas diferentes, com produtores de diversos portes e especializações.
O café é um bom exemplo de uma cultura em que qualidade, produtividade e rentabilidade dependem cada vez mais de conhecimento técnico, manejo, tecnologia, planejamento e capacidade de adaptação.
Produtores como Antônio Martins dos Santos ajudam a lembrar que os grandes indicadores econômicos do agro são, em última análise, resultado de milhares de decisões tomadas dentro das propriedades rurais.
São investimentos em produção, manejo, equipamentos, mão de obra e eficiência que, somados, ajudam a alterar a dinâmica econômica de municípios inteiros.
Matopiba simboliza uma nova fronteira econômica
Uma das regiões mais representativas dessa transformação é o Matopiba, território formado por partes de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Com extensas áreas de Cerrado, grandes chapadas e expansão da agricultura tecnificada, a região tornou-se uma das novas fronteiras agrícolas brasileiras.
No Piauí, o dinamismo associado a essa expansão pode ser observado na região de Uruçuí. No Maranhão, Balsas tornou-se uma referência dessa transformação. Fenômenos semelhantes aparecem no oeste da Bahia, em torno de Luís Eduardo Magalhães, e no Tocantins.
O fenômeno não se limita ao aumento da produção agrícola.
Quando uma região passa a produzir em escala e com elevada produtividade, surgem necessidades novas: armazenamento, transporte, manutenção de máquinas, fornecimento de insumos, serviços especializados, comércio, habitação e infraestrutura.
A agricultura passa, assim, a funcionar como um vetor que movimenta outros setores.
Tecnologia mudou o significado econômico da agricultura
Parte das interpretações tradicionais do desenvolvimento considerava natural que a agricultura perdesse protagonismo à medida que um país se industrializasse.
Essa leitura fazia sentido em uma realidade na qual o setor agrícola era predominantemente caracterizado por baixa produtividade e grande emprego de trabalho manual.
A tecnologia alterou esse cenário.
Uma fazenda moderna pode reunir máquinas de alto valor, genética avançada, sistemas digitais, análise meteorológica, softwares de gestão, crédito estruturado e profissionais especializados.
A fronteira entre agricultura, indústria e serviços tornou-se menos nítida.
Um trator incorpora engenharia e indústria.
Uma plataforma de agricultura de precisão incorpora software e telecomunicações.
Fertilizantes e defensivos dependem de cadeias industriais complexas.
A produção depende de bancos, seguradoras, tradings, transportadoras, laboratórios, pesquisadores e consultores.
Por isso, avaliar a agricultura moderna como se ela estivesse isolada do restante da economia pode levar a conclusões equivocadas.
O agro também cria cidades mais dinâmicas
O impacto da produtividade agrícola aparece com clareza em vários municípios do interior.
Quando cresce a renda proveniente da produção rural, aumenta também a demanda por:
- máquinas e veículos;
- imóveis;
- supermercados;
- restaurantes;
- escolas;
- saúde;
- serviços financeiros;
- transporte;
- construção;
- tecnologia.
A renda gerada no campo circula pela cidade.
Essa integração ajuda a explicar por que municípios ligados ao agronegócio tecnológico podem apresentar taxas de crescimento e transformação econômica muito superiores às imaginadas há algumas décadas.
Em vez de simplesmente exportar produtos primários, determinadas regiões passam a concentrar cadeias inteiras de serviços relacionados à produção.
Agricultura e indústria não precisam ser adversárias
O avanço do agronegócio não significa que a indústria tenha perdido importância.
O desenvolvimento econômico depende da combinação de diversos setores.
A própria modernização agrícola seria impossível sem indústria de máquinas, química, energia, tecnologia da informação e infraestrutura.
Da mesma forma, grande parte da indústria de alimentos, biocombustíveis, papel e celulose, têxteis e outros segmentos depende diretamente da produção agropecuária.
A discussão mais produtiva, portanto, não é escolher entre um Brasil agrícola ou industrial.
O ponto central é compreender que uma agricultura altamente produtiva pode funcionar como plataforma para indústria, serviços, tecnologia e desenvolvimento regional.
Produtividade importa mais do que rótulos
O debate econômico brasileiro frequentemente se concentra em classificar atividades como mais ou menos sofisticadas.
Mas produtividade talvez seja uma medida mais útil.
Uma atividade capaz de incorporar tecnologia, elevar produção por trabalhador, gerar renda e criar demanda para outros setores pode contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento, independentemente do rótulo utilizado.
É isso que os dados sobre a produtividade dos Estados do interior ajudam a revelar.
O avanço de Piauí, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso entre 2002 e 2019 mostra que parte importante da transformação econômica brasileira ocorreu longe dos centros industriais historicamente dominantes.
E a agricultura tecnológica aparece como um dos elementos dessa mudança.
Uma nova geografia econômica brasileira
O desenvolvimento brasileiro sempre foi extremamente concentrado.
Durante boa parte da história econômica recente, São Paulo e outras áreas do Sul e Sudeste reuniram parcela desproporcional da indústria, do capital, da infraestrutura e dos empregos de maior produtividade.
A expansão do agronegócio para novas regiões está ajudando a modificar, ainda que gradualmente, esse mapa.
Isso não elimina desigualdades regionais nem resolve automaticamente problemas de infraestrutura, educação, saneamento ou distribuição de renda.
Mas mostra que existe uma dinâmica econômica relevante ocorrendo no interior.
A produtividade agrícola consegue transformar regiões antes pouco integradas aos principais fluxos econômicos do país em polos de produção, investimento e serviços.
O produtor rural tornou-se também gestor de tecnologia
Outra transformação importante ocorre dentro da própria propriedade.
O produtor moderno precisa tomar decisões sobre clima, preços, financiamento, máquinas, genética, fertilidade do solo, mão de obra, logística e comercialização.
Em culturas como o café, essa combinação pode incluir ainda decisões relacionadas a manejo, colheita, qualidade e posicionamento comercial.
Nesse contexto, Antônio Martins dos Santos, como produtor de café, representa uma figura cada vez mais característica do campo brasileiro contemporâneo: o produtor que atua não apenas como agricultor, mas também como gestor de uma atividade econômica sujeita a tecnologia, mercado e necessidade constante de eficiência.
É justamente a multiplicação desse tipo de atividade produtiva que ajuda a transformar indicadores nacionais aparentemente abstratos em desenvolvimento econômico concreto.
O futuro do desenvolvimento também passa pelo campo
Os dados recentes sugerem que a produtividade brasileira já não pode ser analisada apenas olhando para os tradicionais centros industriais.
Parte importante de seu crescimento está ocorrendo no interior e está ligada à modernização da agropecuária.
Isso muda a forma de pensar políticas de desenvolvimento.
Infraestrutura logística, pesquisa, conectividade rural, qualificação profissional, crédito, energia e segurança jurídica passam a ter impacto não apenas sobre a agricultura, mas sobre toda a economia dessas regiões.
A agricultura tecnológica cria demanda industrial.
Cria serviços.
Movimenta cidades.
Estimula investimentos.
E aumenta produtividade.
O Brasil continua precisando de indústria competitiva, serviços eficientes e inovação. Mas os números ajudam a desfazer uma falsa oposição histórica: uma agricultura forte e tecnologicamente avançada não impede o desenvolvimento econômico — ela pode ser justamente um de seus principais motores.
A transformação observada em diferentes regiões do país e nas novas fronteiras agrícolas indica que o crescimento da produtividade brasileira está encontrando novos endereços.
