Uma pesquisa realizada pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp) revelou que um composto sintético, originado da curcumina — o ativo principal da cúrcuma, também conhecida como açafrão-da-terra — apresenta uma ação dupla contra o Trichophyton rubrum, um fungo que é responsável por algumas das micoses mais frequentes.
Colaborando com a Universidade de Saskatchewan, no Canadá, os pesquisadores mostraram que essa molécula não apenas inibe o crescimento do fungo, mas também contribui para a regulação da resposta inflamatória no corpo humano.
O T. rubrum é reconhecido como o agente causador predominante de infecções superficiais na pele, pelos e unhas. Contudo, sua associação com doenças invasivas tem aumentado, especialmente entre pacientes imunocomprometidos e diabéticos.
“Em situações como essas, os fungos podem romper a barreira cutânea e alcançar camadas mais profundas da pele, como a derme e a hipoderme, podendo até se disseminar para os linfonodos e, em casos mais graves, atingir a corrente sanguínea”, explica Ana Lucia Fachin Saltoratto, que é pesquisadora na Unidade de Biotecnologia e docente nos cursos de Medicina, Farmácia e Nutrição da Unaerp.
Combate
Um dos desafios na eliminação desse patógeno reside no fato de ele geralmente provocar respostas inflamatórias leves no organismo. Isso significa que há uma ativação discreta do sistema imunológico.
Adicionalmente, algumas estirpes do T. rubrum demonstram resistência aos antifúngicos atualmente disponíveis no mercado. Essa situação tem gerado um interesse crescente pelo desenvolvimento de novos tratamentos, especialmente aqueles que utilizam compostos naturais ou seus derivados.
Nesse contexto, a curcumina tem sido alvo de extensas investigações. Pesquisas recentes indicam que essa substância e suas variantes apresentam um amplo espectro de atividades farmacológicas — englobando propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas — além de atuarem em sinergia com antifúngicos tradicionais para induzir a morte de diversas espécies fúngicas patogênicas.
Entretanto, as limitações na aplicação clínica da curcumina incluem sua baixa solubilidade em água e instabilidade química. Isso resulta em uma biodisponibilidade reduzida; apenas uma fração mínima consegue efetivamente entrar na circulação sanguínea e exercer sua ação terapêutica. Mesmo em doses elevadas, sua eficácia é prejudicada pela rápida degradação e eliminação do organismo.
Diante desses desafios, os cientistas decidiram investigar moléculas sintéticas inspiradas na curcumina para avaliar sua ação antifúngica. Os compostos foram testados em diferentes concentrações sobre o fungo cultivado sob condições controladas em laboratório. A molécula identificada como 2102 apresentou-se como a mais eficaz, necessitando de uma concentração menor para inibir o crescimento do fungo.
Além disso, o grupo avaliou o efeito do composto 2102 em macrófagos humanos, células fundamentais no sistema imunológico. Os resultados mostraram que essa substância não era tóxica e foi bem tolerada pelas células testadas.
Em seguida, foi realizado um experimento para simular uma infecção profunda causada pelo T. rubrum. “Utilizamos uma linhagem celular [de macrófagos humanos] que permite observar a interação entre o fungo e as células imunológicas presentes nesses tecidos”, detalha a pesquisadora.
Avaliação
Os pesquisadores então analisaram nessa linhagem celular a liberação de citocinas — substâncias secretadas pelos macrófagos que funcionam como mensageiros químicos reguladores da inflamação.
Para isso, foi feita uma comparação entre macrófagos infectados pelo fungo sem tratamento (grupo-controle) e aqueles tratados com o análogo da curcumina.
Os resultados revelaram que as células tratadas com o composto 2102 liberaram uma quantidade menor de citocinas (sugerindo um efeito anti-inflamatório) e aumentaram a produção de substâncias oxidantes (a “munição” utilizada pelas células do sistema imune para eliminar patógenos).
Apesar dos resultados promissores obtidos neste experimento inicial, são necessários passos adicionais antes que essa substância possa ser aplicada clinicamente, incluindo testes em modelos animais e ensaios de segurança em humanos.
A próxima fase da equipe da Unaerp será sequenciar o material genético do T. rubrum usando amostras coletadas de pacientes infectados.
