domingo, 18 de outubro de 2026
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Alimentos

Produtora abandona a cidade em busca de tranquilidade no campo e aposta na avicultura para superar dificuldades financeiras

O desejo de estar mais próxima dos pais foi o principal impulso que fez Luciane Oliveira considerar deixar a vida em São Paulo para iniciar uma nova jornada no interior. Essa mudança se tornou ainda mais relevante durante a crise econômica de 2008, quando seus planos de abrir uma loja de roupas foram substituídos por uma oportunidade inusitada: empreender na criação de frangos.

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Quase duas décadas depois, Luciane, que antes morava na metrópole, é agora uma das responsáveis pela produção avícola do Sítio Aconchego, localizado em Guaxupé, no sul de Minas Gerais. Junto aos pais, Alceu e Laurinda Oliveira, encontrou na avicultura não apenas uma fonte de renda, mas também uma forma de manter a família unida.

“Eu costumava usar salto alto e hoje estou de bota de borracha”, brinca Luciane ao refletir sobre sua transformação pessoal.

A saudade que motivou a mudança

Antes de se dedicar à avicultura, Luciane vivia a rotina agitada da capital paulista. Enquanto isso, seus pais realizaram o sonho antigo de adquirir uma propriedade rural.

Com os irmãos escolhendo novos caminhos para suas vidas, a distância começou a pesar sobre Luciane. Ela percebeu que não queria continuar longe da família.

“Minha irmã foi morar fora e meu irmão casou. Eu pensei: ‘Não dá para ficar sozinha aqui’. Então perguntei ao meu pai: ‘Tem espaço para mim aí?’. Ele respondeu: ‘Vamos lá’”, recorda.

A mudança para Minas Gerais era uma chance de recomeço, mas era imprescindível encontrar uma atividade que garantisse sua subsistência.

Luciane inicialmente sonhava em abrir uma loja de roupas. Contudo, a crise financeira de 2008 trouxe inseguranças e levou a família a buscar alternativas viáveis para investir.

“Meu plano era montar uma loja de roupas até que veio a crise em 2008. Então começamos a pesquisar formas de ganhar dinheiro com a terra. Aí entramos na integração e descobrimos o frango”, revela.

O Sítio Aconchego carecia da infraestrutura necessária para abrigar a produção avícola. Assim, surgiu o projeto para construir uma granja que pudesse sustentar essa nova fase familiar.

Do salto alto à bota de borracha

Em janeiro de 2009, o primeiro lote de frangos chegou à propriedade. Sem experiência prévia na área, Luciane teve que aprender sobre cuidados com os animais e as exigências do manejo avícola, além da importância da supervisão diária das condições da granja.

A rotina no campo era radicalmente diferente daquela à qual estava acostumada em São Paulo.

“Aprendi que comida não vem do supermercado. Passei a valorizar mais a natureza e entender que lidar com frangos é cuidar de seres vivos. Cada dia traz algo novo e um aprendizado diferente”, afirma.

Para ela, criar aves requer dedicação contínua. É essencial observar variações climáticas, comportamentos dos animais e condições dos galpões para assegurar um bom desenvolvimento dos lotes.

“O desafio é o que me motiva. Cada dia é único; ontem estava quente, hoje está frio. E é sempre o mesmo frango lá”, explica.

Luciane admite que o trabalho no campo não oferece tanto tempo livre quanto muitos imaginam. No entanto, estar próxima dos pais e desenvolver atividades na propriedade fazem valer os desafios enfrentados.

“A vida no campo traz paz. A avicultura vai além da criação; é sobre alimentar as pessoas. Meu pai diz que é como ter uma fábrica de carne”, ressalta.

A transição para a avicultura também trouxe momentos difíceis. Um episódio marcante ocorreu logo com o primeiro lote quando 34 frangos morreram perto da época do abate. Apesar do alojamento contar com cerca de 14 mil aves, essa perda deixou Luciane devastada.

“Aquilo foi devastador para mim. Eu me senti derrotada e pensei que não havia absorvido nada do que o extensionista havia ensinado”, recorda emocionada.

A dor foi tão intensa que ela passou todo o dia chorando.

“Chorei tanto que não almocei nem jantei. Mas isso me ensinou que erros podem ser corrigidos e são oportunidades para aprender.”

Com o passar dos anos, ela adquiriu mais confiança ao enfrentar os desafios da produção. Atualmente, acredita que conhecimento técnico deve andar lado a lado com observações diárias dos animais.

“Cuidar dos frangos exige olhar atento. É como cuidar de um bebê na incubadora; você precisa estar presente todos os dias. Não adianta confiar apenas em painéis eletrônicos; quem realmente informa é o frango.”

O sonho dos pais que deu origem ao negócio familiar

Antes mesmo da chegada de Luciane ao campo, o Sítio Aconchego já simbolizava um grande sonho realizado por Alceu e Laurinda.

Originário de Andradina no interior paulista, Alceu começou sua trajetória profissional ainda jovem na zona rural prestando serviços em diversas propriedades agrícolas.

Apesar das dificuldades enfrentadas na época, ele guarda lembranças positivas desse período inicial.

“Sempre trabalhei com prazer no campo. Eu fazia trabalhos temporários mas sempre fui feliz”, relata ele.

Em 1975, Alceu e Laurinda decidiram buscar um novo caminho em São Paulo. Ele conseguiu emprego em uma indústria onde iniciou como ajudante e rapidamente foi promovido após seis meses.

Após anos dedicados ao trabalho e economias acumuladas durante a vida ativa, decidiram comprar um terreno no interior quando Alceu se aposentou.

Foi assim que chegaram à Guaxupé. Laurinda narra que escolheram seu sítio de maneira especial; ao se aproximarem da propriedade, ela sentiu instantaneamente que ali seria seu novo lar.

“Eu pedi ajuda divina: ‘Mostre-me onde será’. Quando chegamos perto do local vi as árvores e disse: ‘É aqui! Pare o carro’”, recorda emocionada.

Para Alceu, essa propriedade representa anos de trabalho árduo dedicado à realização desse sonho familiar.

“Isso aqui não veio como herança; é fruto do nosso esforço conjunto”, enfatiza ele.

O sonho inicial destinado à aposentadoria acabou também por oferecer oportunidades profissionais para Luciane assim como fortalecer os laços familiares através do trabalho conjunto na granja.

Uma granja construída com aprendizado e dedicação

Atualmente existem dois galpões destinados à criação das aves na propriedade equipados com sistemas modernos de ventilação e controle ambiental eficientes

Ao longo dos anos ocorreram várias melhorias na estrutura como troca das cortinas antigas por novas além da instalação do aquecimento a gás tornando tudo mais eficiente

Os avanços foram potencializados pelo acompanhamento constante dos profissionais especializados em assistência técnica

Um extensionista envolvido no projeto destacou a dedicação dos Oliveira como um fator crucial para o sucesso da granja

“Eles fazem bem o básico. Cuidar desses lotes é um diferencial notável devido à determinação deles,” comenta .

A propriedade participou recentemente da avaliação entre produtores integrados alcançando destaque entre os melhores resultados apresentados pela equipe técnica .

Apesar das inovações tecnológicas , Luciane acredita fortemente que a experiência prática continua sendo fundamental .

“Criar frangos não pode ser aprendido apenas em livros ou cursos . O olhar atento ao cotidiano faz toda diferença , pois sem união familiar nem as melhores técnicas funcionam” .

De volta pro aconchego

O nome dado à propriedade reflete perfeitamente as emoções que impulsionaram Luciane rumo ao campo .

Essa inspiração veio quando ouviu no rádio enquanto dirigia , a canção De Volta pro Aconchego , interpretada por Elba Ramalho .

Naquele momento seus pais estavam se preparando para viver no interior enquanto ela ainda permanecia na cidade grande .

“Senti como se meus pais fossem ninho e eu fosse passarinho , então eles estavam retornando ao ninho . Por isso escolhemos Aconchego” , explica .

Anos depois , Luciane também voltaria , descobrindo na criação avícola sua nova profissão além da chance diária de estar com sua família .

Hoje , essa atividade não só gera empregos diretos mas também movimenta diversos setores da cadeia produtiva .

“Aqui geramos dois empregos diretos mas impactamos toda uma rede maior . O agricultor precisa ser persistente porque sem ele não há comida nas prateleiras” , ressalta .

Legado familiar

Quase 18 anos após darem início à produção , os Oliveira continuam planejando seu futuro cheio possibilidades .

Entre as ideias discutidas está construir um terceiro galpão , algo que demandaria melhorias nas instalações elétricas , hidráulicas além do uso energia solar fotovoltaica .

Luciane surge como provável sucessora dessa história familiar dando continuidade ao legado construído junto aos pais .

No entanto , Alceu afirma que suas maiores conquistas vão além do patrimônio ou resultados obtidos pela granja .

“Sou feliz aqui independente do tamanho da granja ou qualquer coisa material porque tudo foi resultado do nosso esforço ” afirma ele .

Laurinda reforça esse sentimento destacando as relações familiares cultivadas durante mais cinco décadas juntos .

“Independentemente das posses materiais nós temos essa família maravilhosa ; sou grata por todas essas bênçãos ” conclui ela .

Para Luciane , aquele desejo profundo pela presença familiar acabou se transformando numa oportunidade enriquecedora onde pôde escrever uma nova história junto aos seus pais .

E ver os frutos desse trabalho pode ser sentido em cada lote produzido enriquece seu coração todos os dias : “Ver esses pintinhos crescerem até virarem aves grandes me faz sentir orgulho pois sei bem tudo pelo qual passei até aqui ” conclui emocionada .

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