Duas décadas atrás, a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) detectou que os cebolicultores estavam exagerando no uso de fertilizantes, uma prática motivada pela intensa competição internacional. Na última segunda-feira (26), foram apresentados os resultados de uma campanha que visa ajudar esses agricultores a otimizar suas aplicações.
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A Epagri informa que a rivalidade com a cebola argentina no início dos anos 2000 levou os produtores catarinenses a elevar excessivamente o uso de fertilizantes na tentativa de igualar a produtividade do país vizinho. Contudo, essa abordagem resultou em um problema maior: o excesso de nitrogênio favoreceu o surgimento de doenças nas folhas, comprometendo a qualidade da cebola e intensificando as perdas após a colheita.
Em resposta a essa situação, pesquisadores desenvolveram diretrizes para o uso adequado de nitrogênio, fósforo e potássio (NPK), visando maximizar tanto a qualidade quanto o rendimento das colheitas, além de reduzir os custos produtivos. Há uma década, são realizadas campanhas informativas, eventos e visitas técnicas às propriedades rurais.
Resultados Obtidos
“Analisando as curvas de crescimento e absorção de nutrientes dos principais cultivares, conseguimos definir os períodos ideais para fertilização e como realizar isso em etapas. Assim, as ocorrências de bacterioses e as perdas pós-colheita foram reduzidas significativamente, e hoje cerca de 90% dos produtores seguem nossas orientações”, comenta Claudinei Kurtz, pesquisador da Estação Experimental da Epagri em Ituporanga (EEItu).
O Relatório 2025 sobre os impactos das ações da Epagri revela que, ao longo dos últimos 20 anos, houve uma diminuição de 40% no uso de fertilizantes. Isso resultou em uma redução média de 10% nos custos produtivos da cebola no estado e em uma diminuição das perdas pós-colheita em 21,4%.
Em termos econômicos, os benefícios advindos da adoção dessas tecnologias resultaram em uma economia total estimada em R$62,47 milhões em todo o estado, conforme detalhado no Balanço Social 2025.
Um exemplo positivo é o caso de Vanderlei Schmitt, 42 anos, residente em Aurora. Ele cultiva cebolas em quatro hectares e começou a aplicar as recomendações adequadas em 2021 após participar de uma palestra conduzida por Claudinei. O sucesso foi tão significativo que na safra seguinte seu irmão Leandro, 35 anos, também adotou as práticas recomendadas.
“Antes fazíamos do nosso jeito tradicional: comprávamos tudo que era oferecido no mercado agropecuário e aplicávamos mais produto na fase do ‘encabeçamento’ da cebola. Porém, após seguir as orientações da Epagri, percebi que as plantas se tornaram mais robustas e mais resistentes aos herbicidas. Além disso, a qualidade das cebolas armazenadas se manteve excelente até maio, quando os preços aumentam devido à baixa oferta”, relata.
Vanderlei menciona que sua boa relação com extensionistas e pesquisadores da Epagri contribui diretamente para os resultados positivos obtidos na propriedade dele. Na safra 2025/26 ele alcançou uma colheita total de 176 toneladas. “Sempre que enfrento algum problema no cultivo, envio uma foto para o Claudinei analisar; recentemente ele me sugeriu ajustar com uma dose extra de ureia e funcionou muito bem”, conta.
A Dimensão do Problema
“Os produtores estavam usando quase três vezes mais fertilizante do que na década de 1990. Essa adubação descontrolada resultou em doenças bacterianas e fúngicas além de deteriorar o solo; por isso concentramos nossos esforços em estabelecer diretrizes para doses adequadas e épocas corretas para aplicação dos macro e micronutrientes”, explica Claudinei.
O pesquisador foi responsável pela criação do “Manual de Adubação e Calagem” para a cultura da cebola nos estados SC e RS (2016) e dois anos depois lançou o boletim técnico “Fertilidade do Solo: Adubação e Nutrição da Cultura da Cebola” (2018), tornando-se um referencial nesta área.
A Epagri ressalta que a pesquisa contínua e a divulgação das recomendações técnicas são processos prolongados; muitas vezes leva tempo até que os agricultores se convençam a alterar seus métodos produtivos. Esse foi o caso de Renato da Silva, 45 anos, produtor localizado em Ituporanga que planta sete hectares na região conhecida como Chapadão Santana.
Produtor adotou recomendações técnicas quando seus gastos com insumos se tornaram excessivos (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)
“Nasci plantando cebolas; mesmo quando meus irmãos foram trabalhar na cidade eu permaneci aqui dedicando-me apenas à agricultura”, conta Renato. Apesar da vasta experiência adquirida ao longo dos anos nas lavouras o agricultor inicialmente desconfiava das orientações dadas pelos extensionistas. Porém, diante do aumento desenfreado nos preços dos fertilizantes percebeu que era hora de considerar os conselhos científicos.
“Antes nem realizávamos análise do solo. A adubação era feita com misturas simples como esterco combinado com NPK que frequentemente causavam problemas como podridão. Depois começaram a aparecer vendedores afirmando que seus produtos eram melhores do que as recomendações oferecidas pela Epagri; mantive esse hábito até 2022 quando percebi que meus custos estavam fora do controle”, relata ele.
Após implementar as sugestões propostas pela Epagri sua utilização de fertilizantes reduziu-se drasticamente: passou de 150 sacas (50kg) para apenas 90 sacas. Na última safra obteve uma colheita totalizada em 273 toneladas com produtividade média superior à média estadual (39 ton/ha), enquanto a média estadual era apenas 28,841 ton/ha na safra 2024/25.
*Sob supervisão de Hildeberto Jr.
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