segunda-feira, 05 de outubro de 2026
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Agricultura

Produção de etanol a partir do milho pode atingir 45% em uma década, aponta Unem

Nos próximos anos, a participação do etanol produzido a partir do milho na matriz de biocombustíveis do Brasil deverá aumentar. Amaury Pekelman, que ocupa o cargo de presidente-executivo da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), afirma que essa fonte pode representar entre 40% e 45% da produção nacional de etanol na próxima década.

Desde 2017, a produção de etanol com base no milho vem se expandindo no Brasil. Nos últimos cinco anos, esse setor registrou um crescimento médio anual de 37%, segundo Pekelman. Atualmente, cerca de 30% do etanol brasileiro é oriundo do milho, enquanto a cana-de-açúcar representa os 70% restantes.

“Estamos prevendo um aumento na participação do etanol de milho nos próximos dez anos. Ele pode alcançar entre 40% e 45%”, comentou.

Leia a entrevista completa:

Etanol: milho e cana são equivalentes

Embora existam diferenças nas matérias-primas utilizadas, o produto resultante é idêntico. O etanol derivado tanto do milho quanto da cana pode ser empregado diretamente em veículos ou misturado à gasolina.

“Na verdade, o que importa é o produto final. A molécula que utilizamos nos carros é a mesma, seja ela proveniente do milho ou da cana. Não faz diferença para o uso”, explicou Pekelman.

As distinções residem nos custos, na disponibilidade das matérias-primas e na estrutura das usinas. Nas usinas flexíveis, existe a opção de escolher entre milho e cana conforme as condições do mercado.

“Em usinas flexíveis, elas têm a liberdade de optar por milho ou cana dentro da mesma instalação. Isso é muito vantajoso porque permite escolher a matéria-prima mais econômica.”

Alterações na mistura com gasolina

Nos últimos anos, o Brasil aumentou a porcentagem de etanol misturado à gasolina de 27% para 32%. Segundo Pekelman, a legislação vigente permite uma mistura que pode chegar até 35%, contanto que sejam realizados novos estudos para fundamentar essa mudança.

“A lei conhecida como Combustível do Futuro possibilita essa elevação para até 35%, mas precisamos conduzir novas pesquisas para viabilizar essa transição.”

O executivo destacou que as avaliações previamente realizadas tinham como objetivo analisar o desempenho dos veículos. Para ele, garantir a previsibilidade da mistura é crucial para atrair novos investimentos ao setor.

“Quem decide investir está focando em expandir sua produção e seus negócios. Se não houver segurança quanto à possibilidade de reverter para uma mistura de 27% ou até mesmo 25%, as vendas podem ser comprometidas.”

Pekelman também enfatizou a importância de uma política contínua voltada aos biocombustíveis.

“O Brasil tem se comprometido com os biocombustíveis e busca uma matriz energética mais limpa. Isso é uma característica marcante do nosso país.”

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DDG impulsiona utilização do milho

A fabricação de etanol a partir do milho também gera subprodutos significativos, como o DDG (Dried Distillers Grains), que é utilizado na alimentação animal. Conforme Pekelman, parte do milho processado vai para a produção de etanol, enquanto outra parte resulta em DDG e óleo de milho.

“O DDG serve como ingrediente na nutrição animal; é usado para alimentar gado, aves e peixes”, disse ele.

Esse coproduto tem ganhado destaque na dieta animal em sistemas de confinamento. Segundo Pekelman, sua inclusão pode acelerar o desenvolvimento dos animais em comparação com dietas baseadas apenas no milho.

“Animais que normalmente levariam dois a três anos para atingir o peso ideal conseguem fazer isso em um ano e meio quando alimentados com DDG ao invés de somente milho.”

Proximidade das usinas às lavouras

A expansão das usinas dedicadas ao etanol de milho se concentrou principalmente na região Centro-Oeste do Brasil, onde há grande produção desse grão e rebanhos significativos.

Pekelman ressalta que estar próximo da matéria-prima minimiza desafios logísticos e favorece o funcionamento das usinas. “As biorrefinarias foram instaladas próximas aos locais onde se encontra tanto a matéria-prima quanto os maiores rebanhos.”

Além dessa região central, o executivo menciona unidades localizadas no Maranhão e na Bahia. No Sul do país, há também produção de etanol utilizando trigo como base. Já as usinas produtivas voltadas à cana estão distribuídas por várias regiões brasileiras.

Oportunidades para o milho no setor de etanol

A crescente demanda interna por milho devido ao aumento da produção de etanol está mudando as dinâmicas entre produtores e compradores, conforme destaca Pekelman.

“Atualmente, o milho se tornou essencial e certamente terá um papel ainda mais destacado no futuro. Prevemos que em cerca de dez anos teremos uma produção maior de milho em relação à soja no Brasil.”

Além disso, a fabricação de etanol oferece novas oportunidades comerciais para os produtores locais através da formalização de contratos longos. “Baseados no etanol derivado do milho, garantimos contratos que asseguram a produção dos agricultores por períodos prolongados.”

Etanol: chave na transição energética

O potencial uso do etanol pode se estender além dos veículos leves. De acordo com Pekelman, esse biocombustível pode servir como insumo para produzir combustível sustentável destinado à aviação (SAF).

“O etanol seria uma fonte primária para gerar SAF; ele pode ser feito tanto a partir do milho quanto da cana”, destacou ele.

No entanto, ele esclareceu que não se trata simplesmente de usar etanol nas aeronaves; este passará por transformações tecnológicas específicas antes da utilização como combustível aéreo.

“Não se deve pensar em aviões movidos diretamente por etanol; trata-se apenas da base biocombustível utilizada na formulação específica para combustíveis aeronáuticos”, complementou Pekelman.

Ele também mencionou investigações sobre possíveis aplicações do etanol no transporte marítimo.

Desafios econômicos à produção

Apesar do crescimento observado no setor, Pekelman alerta que os aumentos nos custos produtivos e as condições mercadológicas impõem desafios às usinas produtoras.

Conforme ele aponta, preços elevados dos fertilizantes e mão-de-obra estão pressionando os custos agrícolas. Simultaneamente, os valores da gasolina não acompanharam as altas globais dos combustíveis fósseis: “Este ano tem sido bastante desafiador devido à compressão dos preços frente ao aumento dos custos.”

Para os agricultores dedicados ao cultivo do milho, Pekelman menciona ainda os impactos das taxas de juros elevadas e das condições climáticas nas decisões relacionadas à expansão da produção: “Os fatores econômicos são fundamentais para qualquer produtor; atualmente temos juros muito altos que dificultam o acesso ao crédito sem garantias adequadas.”

Expectativas futuras para o cultivo de milho

Pekelman projeta um aumento significativo na produção brasileira de etanol derivado do milho nos próximos dez anos; atualmente estimada em cerca de 10 bilhões de litros anualmente.
“Prevemos dobrar essa quantidade nos próximos dez anos,” concluiu.

Segundo ele, com o crescimento contínuo no consumo dos biocombustíveis haverá um aumento correspondente na demanda pelo milho cultivado no país: “À medida que este setor cresce e consome mais biocombustível, mais agricultores terão oportunidades.”

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