Roraima enfrentou uma transição abrupta do período chuvoso para a estiagem, sem o intervalo típico entre essas duas fases climáticas, e já observa os primeiros impactos do fenômeno El Niño. Em julho, o estado registrou 40 focos de calor, o maior índice para esse mês desde que as medições começaram. Até a quinta-feira, dia 13 de agosto, foram contabilizados 46 focos, número que se aproxima do registrado em agosto de 2015, durante o último super El Niño.
Essa análise foi divulgada pelo coronel Anderson de Carvalho, comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar de Roraima (CBMRR).
“O cenário é preocupante”, destacou ele. “Não houve uma transição adequada entre o inverno e o verão. Estamos lidando com duas operações ao mesmo tempo.”
Entre maio e junho, diversos municípios experimentaram chuvas acima da média, resultando na declaração de situação de emergência com reconhecimento federal.
Informações de órgãos federais
O fenômeno El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais no Pacífico equatorial. Quando as anomalias ultrapassam 1,9 grau, configura-se o super El Niño; atualmente, segundo o coronel, essa medida varia entre 1,8 e 2 graus.
“Conforme as previsões da NOAA [Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos] e do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], espera-se que o El Niño se intensifique no final do ano, especialmente entre novembro e janeiro, com 80% de probabilidade de atingir seu pico nesse período. Isso nos preocupa bastante devido à coincidência com o verão em Roraima,” afirmou.
O Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027 do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), desenvolvido juntamente com outras seis instituições públicas federais, indica uma probabilidade de 100% para a continuidade do fenômeno até o início de 2027, com potencial para uma intensidade muito forte. Além disso, há previsão de um aumento nos incêndios florestais em Roraima entre dezembro de 2026 e abril de 2027. As estimativas sugerem que a precipitação pode ficar até 50 milímetros abaixo da média climatológica em algumas áreas do estado.
Ações contra incêndios florestais e crise hídrica
Os planos de ação e contingência para prevenção e combate a incêndios florestais já foram finalizados. A corporação possui brigadistas contratados e realiza visitas preventivas em Boa Vista e nas áreas rurais circunvizinhas. O calendário para queimadas permanece aberto e é revisado pelo comitê responsável, coordenado pela Femarh; as permissões serão suspensas quando a situação crítica se agravar.
A Defesa Civil opera dois sistemas próprios para monitoramento chamados Spark e Ignis. Este sistema estadual conecta-se ao painel do fogo administrado pelo Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia).
Atualmente, os níveis do rio Branco estão significativamente abaixo da média histórica após terem atingido quase 9 metros durante o pico das chuvas. “A crise hídrica é nossa maior preocupação: garantir o abastecimento de água para a população, os animais e a agricultura. Em 2015 enfrentamos grandes desafios nesse sentido e já estamos prontos para responder novamente”, comentou.
Adicionalmente, o Estado está ampliando contratos para locação de caminhões-pipa e possui poços artesianos abertos em áreas que historicamente sofrem com a seca.
O comandante fez um apelo à população: “O fenômeno El Niño por si só não provoca incêndios. Ele cria condições propícias para isso acontecer, mas não inicia os incêndios por conta própria. A maioria dos incêndios em Roraima é atribuída à ação humana: cerca de 99% deles são causados por pessoas,” ressaltou.
Fonte: Da Redação
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