segunda-feira, 15 de junho de 2026
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Agricultura

Unicamp desenvolve ferramenta que converte resíduos agrícolas em créditos de carbono e energia sustentável

Resíduos oriundos da agroindústria, como cascas de frutas, bagaço de maçã, palha de cana-de-açúcar, pó de café e sementes de açaí, que geralmente seriam descartados, têm o potencial de se transformar em fontes renováveis de energia e créditos de carbono.

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Com o intuito de auxiliar empresas e produtores na avaliação desse potencial, cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) criaram a calculadora Biomassa_Compensa. Essa ferramenta gratuita permite estimar a pegada de carbono evitada e os créditos gerados a partir do processamento desses resíduos.

A calculadora está acessível online e possibilita que os usuários insiram informações sobre o tipo e a quantidade de resíduo orgânico que desejam tratar. Com isso, é possível obter uma estimativa imediata das emissões de gases do efeito estufa que podem ser prevenidas. Além disso, a plataforma traduz esses dados em métricas mais compreensíveis, como o número equivalente de árvores plantadas ou veículos retirados das ruas.

A professora Tânia Forster Carneiro, coordenadora do projeto na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, explica que essa ferramenta foi desenvolvida após anos de pesquisa focadas na utilização energética dos resíduos agroindustriais. “A calculadora surgiu para compilar informações dispersas em teses acadêmicas. Se um proprietário de restaurante ou uma pequena indústria alimentar deseja verificar a viabilidade da produção de biogás e bioenergia a partir da biomassa disponível, a ferramenta oferece respostas rápidas e baseadas em fundamentos científicos”, afirma.

Transformação dos resíduos em energia e renda

Desenvolvido por equipe do Laboratório de Bioengenharia, Tratamento de Águas e Resíduos (Biotar), o software integra dados coletados em estudos sobre diferentes tipos de biomassa residual, incluindo bagaço de maçã, casca de laranja e resíduos provenientes da indústria cafeeira.

A proposta principal é demonstrar que esses materiais, frequentemente considerados passivos ambientais, podem gerar valor econômico através da produção de biogás, eletricidade, calor e créditos de carbono.

No cenário atual, uma parte significativa dos resíduos orgânicos oriundos da agroindústria ainda é destinada a aterros sanitários. Contudo, especialistas acreditam que o aprimoramento das regulamentações ambientais aumentará a necessidade por soluções que promovam o reaproveitamento desses materiais.

Créditos de carbono com maior impacto que reflorestamento

Um dos aspectos inovadores dessa ferramenta é sua capacidade de calcular os benefícios climáticos advindos do tratamento da biomassa. Isso se deve ao fato de que a decomposição desses resíduos em aterros libera metano — um gás com potencial global para aquecimento cerca de 29 vezes maior que o do dióxido de carbono (CO₂).

Ao capturar esse metano e convertê-lo em energia através dos biodigestores, é possível evitar emissões significativas e gerar créditos relacionados ao carbono.

A professora Tânia Forster destaca que essa abordagem pode ter um impacto ambiental superior ao oferecido por algumas iniciativas tradicionais voltadas para compensação ambiental. “Quando tratamos o resíduo adequadamente, evitamos que metano seja liberado na atmosfera. Isso pode resultar em um crédito permanente com potencial compensatório maior do que o simples plantio de árvores”, explica ela.

Foco na agroindústria alimentícia

Conforme informações da Unicamp, a Biomassa_Compensa preenche uma lacuna no mercado ao direcionar seu foco especificamente aos resíduos gerados pela agroindústria alimentícia — como cascas, sementes e bagaços. Atualmente, muitas calculadoras disponíveis concentram-se predominantemente em resíduos pecuários ou biocombustíveis derivados das grandes commodities agrícolas.

A expectativa é que essa tecnologia seja adotada por grandes indústrias alimentícias, cooperativas agrícolas, pequenas agroindústrias e restaurantes interessados em avaliar a viabilidade econômica para investir no tratamento dos seus resíduos e na geração energética.

Além da versão pública disponível online, a universidade também planeja customizar a ferramenta para empresas interessadas na análise específica dos seus resíduos ou na integração aos seus sistemas ambientais já existentes.

A iniciativa tem como objetivo acelerar a transição energética no Brasil e promover um aproveitamento sustentável dos resíduos gerados pelo agronegócio brasileiro.

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