Ao avistar uma mancha branca-azulada em frutas como laranjas, limões ou tangerinas, a maioria dos agricultores já imagina que o resultado será uma caixa repleta de frutas afetadas por mofo. O fungo Penicillium italicum, responsável por essa condição, provoca uma resposta química intensa na fruta, que tenta se defender da infecção.
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No entanto, essa reação é frequentemente ineficaz, pois o P. italicum libera compostos químicos que conseguem anular tanto as defesas naturais da fruta quanto os microrganismos benéficos que habitam sua superfície.
A primeira análise do modo de ataque desse patógeno foi realizada por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de São Paulo (USP), com o suporte da Fapesp.
O estudo, publicado na revista Journal of Agricultural and Food Chemistry, foi reconhecido como o melhor artigo científico de 2025.
A professora Taícia Pacheco Fill, do Instituto de Química da Unicamp, aponta que o Brasil é o maior produtor mundial de laranjas e lidera as exportações de suco, mas enfrenta enormes perdas pós-colheita devido a fungos.
“O mofo azul [P. italicum] é um dos maiores problemas enfrentados pelos agricultores, ficando atrás apenas do mofo verde [P. digitatum], que causa até 90% das perdas em áreas tropicais. Apesar disso, o mofo azul ainda recebe pouca atenção”, observa a professora.
Para a pesquisadora, entender as táticas e os compostos químicos utilizados por esses patógenos é crucial para criar métodos de controle mais eficientes que não dependam exclusivamente de defensivos agrícolas.
Relevância do Mapeamento
No momento, a gestão do mofo azul se baseia no uso de fungicidas sintéticos como imazalil e tiabendazol, que enfrentam crescente resistência e geram preocupações ambientais.
Para investigar as moléculas que afetam os microrganismos benéficos, os pesquisadores analisaram as substâncias químicas produzidas pelo fungo durante a infecção na fruta com técnicas avançadas em metabolômica (que estuda os produtos do metabolismo).
“Através dessa abordagem, conseguimos identificar compostos fundamentais para a infecção. Em testes laboratoriais, notamos que sem essas substâncias químicas o crescimento do fungo P. italicum é significativamente reduzido. Isso nos permite explorar novas estratégias de controle. O próximo passo será desenvolver inibidores específicos para essas vias metabólicas, visando neutralizar o patógeno sem prejudicar o hospedeiro [a fruta]”, explica Taícia Pacheco Fill.
Caminho a Seguir
A rápida propagação do fungo nas caixas de frutas é um fenômeno conhecido como nesting, responsável por até 50% das perdas na cultura na China, terceiro maior produtor global de laranjas e um país com clima predominantemente temperado, onde o mofo azul se desenvolve com facilidade.
No curso da pesquisa sobre diferentes períodos de infecção, os cientistas descobriram que o fungo penetra na casca da fruta através de microlesões.
Conforme relata Evandro Silva, primeiro autor do estudo, nos primeiros dias após a infecção o fungo começa a degradar a parede celular da fruta utilizando enzimas específicas, enquanto a planta responde com compostos bioativos antifúngicos como naringenina e diosmina. Contudo, o fungo também contra-ataca com suas próprias substâncias bioativas.
A equipe utilizou técnicas de espectrometria de massa para mapear como essas moléculas se distribuem durante a infecção.
“O patógeno não só enfrenta as defesas naturais da fruta como também ataca os microrganismos benéficos [endofíticos] presentes na casca que tentam defendê-la. Ele manipula esses compostos para alterar a comunidade microbiana ao seu favor enquanto luta contra as reações defensivas da fruta. É um verdadeiro confronto múltiplo onde ele consegue dominar outros microrganismos e prosperar”, detalha Fill.
A identificação das moléculas produzidas pelo patógeno representa um passo inicial para criar estratégias específicas de controle.
“Nosso laboratório tem se concentrado em descrever os processos de ataque dos patógenos e reconhecer os metabólitos que eles utilizam. Essa compreensão facilita o desenvolvimento de inibidores mais seguros para o meio ambiente, menos prejudiciais à saúde humana e com menor probabilidade de resistência fúngica ou bacteriana”, conclui a pesquisadora.
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